quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Suicídio.

Foi uma mistura de reconciliação, amor e velha guarda. Eu marquei o dia para um suícidio de personalidade. Me esquecer por um dia e viver a inexistencia. Fazer parte de nada e não ouvir, dizer ou respirar. Eu queria estar ali, sem carne, sem massa, sem pisar. Eu disse onde iria, porque eu queria que soubessem como eu me perdi. Eu olhei pra trás e eu disse 'Obrigado', por todo o tempo e por ter-me dado uma vida que hoje eu me recuso viver. Talvez porque não seria a mesma, nem que eu tentasse. Talvez porque o mundo deu voltas amais. Talvez porque as pessoas se tornaram, em meses, de melhores amigos a totais desconhecidos. E o que seria de mim se ainda fosse o mesmo condenado ao um pra sempre quebrado, a um resto de dias preso em dezembro.

Caminhei só então. E não me demorei a cumprir o tempo e chegar perto daqueles que tem mais de mim do que sobrou em meu peito. Eu sorri ao avistá-los, mas um deles faltava. Cumprimentei-os e me senti um pouco mais vivo, do que quando não estou assim tão proximo de mim. E eu só me vejo no espelho quando posso encontrar na sua voz as minhas palavras esquecidas e no teu cheiro o meu lar. O menino veio até mim, sorrindo. Me deu um beijo na face e esperou até todos colocarem-se no caminho de partida. Eu estava amedrontado com mais uma tentativa de nos unir, mas dessa vez parecia tão natural. Os olhares, os sorrisos e a vontade presente de estar todos, em um só.

A quadra tinha cheiro velho e a pintura quase não existia. Assim incolor como meus olhos escolhiam soar. Eu pretendi esconder minha impressão para não chamar qualquer atenção, mas eu estava tão só como nasci. E sendo mais honesto do que você aguentaria ouvir, eu me fiz em solidão porque eu não quis segurar nenhuma mão, já que meu mundo se partiu em quatro desde que eu não pudi resistir e virei pedra ao me virar. E a verdade me atingiu assim como um anjo, o choro me amaldiçoou e quando a lágrima congelou, ainda dentro de mim, eu me vi assim, num reflexo do cristal, preso. Dentro dessa solidão própria e instável. Essa solidão que todos nós compartilhamos e nos liga ao mesmo tempo que não nos une.

O tempo parecia desesperador para todos, só eu estava acalmado, talvez seria melhor dizer acostumado com a espera. E enquanto meu cigarro pudesse me ocupar das conversas que eu tentei evitar não me via apressado. O tic-tac era o marcador natural de toda minha história e são sempre as horas, as semanas, os meses. Mas em si, as horas. Elas que fazem o momento, a ocasião, a escolha das palavras, o meu impulso e para mim, o amor.
Eu só o vejo assim, desde então. Um tic-tac acelerado e destemido. Ele poderia até ser ousado, mas sem dúvida era bravo e encantador. Mágico também se encaixaria, mas nunca eterno. Não. Nada mais que a eternidade do segundo, do que o gosto permanente do primeiro gole e o fim do primeiro ato dessa peça.

Finalmente, a mistura maior se jogou sem cartas. A vodca barata, as palavras não ditas, os antigos e os novos amigos. O desejo. Tudo eu engoli e não permitiria nenhuma ansia. E quando me dei por mim, estava deitado olhando para a menina do sorriso brilhante. Disse 'Eu te amo', eu existia ali, naquele tic-tac instantâneo. Depois já desapareci de novo, uma simples aparição minha, um curto resquiso de quem eu sou.
Levantei-me rápido demais pro meu próprio organismo. Mesmo não sendo ninguém ainda tinha que respeitar o meu corpo. E isso só contribuiu assim como a fumaça auto-destrutiva para pior meu estado. Eu sorri, porque era uma leveza inexplicável. Não pudi ser outra pessoa, não pudi apagar minha existência, mas pude fingir não sentir.

Entramos na casa, numa bola de mentira. Fui o primeiro a entrar e ocupar o banheiro. Acompanhado. Um beijo, sem surpresa. E foi criando-se expectativa e a diversão a partir do alcool correndo em minha corrente sanguinea. Meu corpo pedia desculpas pela minha necessidade de estar com alguém. Meu rosto não tornou-se vermelho, apesar de eu estar humilhado pela cena patética que eu me deixei levar. Eu culpei o drink, quanta covardia. Eu só não queria ser homem, eu só não queria ser mais do que um menino de dezesseis anos.
Ele saiu primeiro, e eu pudi respirar. Terminei de me vestir e lavei o rosto, as mãos... Não posso dizer que me arrependo ou que não foi bom. Deus, como foi. Mas eu estava sem indentidade, sem sexo, sem postura, sem personalidade. Para um personagem, poderia ter sido uma vida inteira. Um amor eterno ou uma tarde irrelevante.
Eu fechei a porta atrás de mim, olhei para todos os rostos que me devolviam o olhar. Caminhei em direção ao próximo que levaria outra parte de quem eu sou ou com um pouco de sorte, dividiria comigo um pouco do que guardou de mim.

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