Talvez...Está bem, sem começar com dúvidas. As certezas são que eu estou exausto. E estaria certo dizer que eu não me revoltaria se deixasse tudo pra trás. Se não fosse pelas pessoas que estão ao meu lado. Mas eu sempre acreditei que eu não iria longe. E que ficaria poucos anos por aqui. Então, quando fechei os olhos, meus últimos pensamentos e talvez (deixe-me citar algo que eu nunca saberia ao certo) até chamasse de desejo. Então, foi atendido. E eu acordei, sem voz. Mas no fundo, eu já sabia que era mais que isso. Não era minha voz que estava muito baixa ou meu corpo que estava transparente, eu não estava ali. Eu não fazia mais parte de nada daquilo. Eu acendi um cigarro e me afastei de pensamentos. Eu estava chateado, já que ninguém mais respondia meus chamados. Mas não era revolta e estava longe de ter forças ou vontade para lutar contra isso. Então, me dirigi até o funeral. Os choros eram tão ardentes e me machuva, como sempre me machuca quando penso em partir, atingiria tantas pessoas. Eu vi, minhas inspiração, comentando sobre como era lamentável e duas lágrimas escaparam seus olhos, e um biquinho surgiu. Foi abraçada, o que seria o máximo que podia fazer por ela. E então, a única pessoa que podia me ver, me viu. Ali, com o cigarro. E me disse 'Você está morto'. Tentei manter-me inexpressivel. Afinal, já suspeitei desde que acordei. E o cigarro preso ao meu dedo, fez seu olho me fixar ainda mais. Ela estava calma, sem demonstrar desapontamento, mas estava séria. Não podia culpá-la.
Eu sabia que meu pai estava por vir. E eu só não queria ficar sozinho. Tanto não queria, que procurei alguém pra me fazer compania. Enquanto eu não tinha alguém ao meu lado, e os outros perderiam mais um.
Avistei, Orlando, porque ele se parecia com minha visão de Orlando, criança. Brincando com o caule de uma flor, imitando uma espada. E uma máscara de dinossauro na cara (apenas os ossos do animal já extinto) faziam o aparecer ainda mais infantil. E eu me aproximei. Ele também estava invisivel, sem voz, sem vida.
Por fim, caminhei até a porta do cemitério. E ali fiquei sentado. Tentei terminar o meu cigarro, mas a moça já havia me dito. Que só mais pra frente, aprenderia a tragar e sentir prazer com isso. E muitas outras evoluções veriam do meu tempo. Eu fiquei ali parado. Analisando toda a vida. E eu não queria voltar, mas não era capaz de deixar tantas pessoas pra trás. Acordei.
Com uma vontade de viver. Mesmo que seja a rotina. Estava aliviado por ter a decisão nas minhas mãos. E poder dizer Eu te amo, e ser ouvido.
Graças a Deus não vi minha menina ali, chorando.
Porque isso teria me feito querer ser qualquer coisa, menos morto. Menos o motivo do teu pranto.
Não que eu esteja bem. Ou que eu esteja sorrindo. Mas eu não me sinto indiferente em relação a vida. Me sinto alegre por poder esperar a hora de dar a volta por cima.
Vendo pela primeira vez.
Há 13 anos
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